13 de janeiro de 2010

Da beleza e da feiura no 35º ENCONTRO CULTURAL de LARANJEIRAS - um texto e algumas fotos




Nem bem iniciara o primeiro dia da 35ª edição do Encontro Cultural de Laranjeiras e já tracei  planos para 2011: minhas FÉRIAS na primeira semana de janeiro. Se depender de mim não perco mais nenhum!



A diversidade cultural da programação bem que poderia ser o principal motivo: cordel, shows, simpósio, oficinas, exposições, teatro, cortejos dos grupos folclóricos, etc. Mas não é. O principal motivo, além da óbvia e evidente curtição , é ficar de olho na evolução dos diversos aspectos desse balzaquiano festival, há dois anos 'casado' com a Secult. Dessa união espera-se uma evolução do Encontro. Ao meu ver já há. Mas há muito mais a se fazer.

Se comparada ao seu 'cidadão estatístico' - aquele que aparece nas médias quantitativas da qualidade de vida e afins (mecanismos muy surreais esses aferidores, hein?), a cidade de Laranjeiras , que mesmo tendo grandes empresas instaladas em seu perímetro é bolsão de desemprego, está como um desdentado  que não tem dinheiro para comprar uma dentadura ou, na melhor das hipóteses, aplicar-lhes coroas, blocos e o escambau - o que fica evidente pela quantidade de prédios ruídos, tombados pelo tempo desperdiçado no histórico descaso de quem deveria tomar conta. Esse estado infeliz é  comum aos demais Estados que possuem tais patrimônios. Um exemplo é o prédio da foto à direita, situado na Praça da Conceição, ao lado de onde fora montado palco para diversas atividades do Encontro. Infelizmente não é o único. Outros prédios , de diversas épocas,  também deterioram às claras vistas. Cupins e tempo silenciosamente esburacam a boca da cidade, tombada em 1996 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, como Patrimônio Cultural nacional. Pude ir à Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus e à Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Verifiquei que existem muitos cuidados a serem tomados. Nessa última, o descuido de um integrante de uma equipe de gravação da Rede Brasil provocou a queda da imagem de São Benedito, quebrando-lhe um braço. Não sei quanto custará a restauração, mas não vai ser com super bonder não! Esse duplo descuido, da equipe e da organização, em permitir que quem quisesse subisse no altar para fotografar. Em outros lugares algumas peças similares a essa que foi quebrada teriam vidros blindados.  

Para saber mais sobre alguns aspectos históricos-artísticos  da cidade, leia esse ótimo artigo 'Laranjeiras: barroco em Sergipe', escrito pelo artista plástico e professor Marcelo Uchoa. O site Wikipédia apresenta um rico resumo de aspectos históricos, geográficos e culturais. E tem essa bibliografia sugerida para estudos acadêmicos.



Um movimento contrário a essa deteriorização aparente existe. Entre poucas outras, a restauração do trapiche, cuja estrutura arquitetônica do século XIX abriga hoje a UFS - Campus Laranjeiras, viabilizado pelo projeto Monumenta, que pretende atender outras demandas de preservação, conservação e restauração. As dependências do Campus serviram de palco para algumas das peças teatrais encenadas durante o Encontro, exibição do vídeo de Marcelo Roque
 "As aventuras de seu Euclides - Chegança", e para a realização do Simpósio,  promovido pela Secult, teve o tema "Patrimônio Cultural: pilar do desenvolvimento" que foi muito bem abordado pelos palestrantes. É um tema cada vez mais freqüente nas discussões sobre desenvolvimento local,  instigado por organismos internacionais como a  United Nations Educacion, Scientific and Cultural OrganizationUNESCO,  presente na Conferência de abertura do Simpósio representado pela Profª Jurema Machado, coordenadora de cultura da entidade. Também representados estavam o IPHAN, o MinC, a Secult, a prefeitura do município e o representante dos grupos folclóricos, José Ronaldo Menezes, o Zé Rolinha, integrante dos grupos Lambe SujoChegança Almirante Tamandaré, uma  enciclopédia sobre a história dos grupos folclóricos em Laranjeiras.



Ora, entender a cultura popular, material e imaterial como pilar de desenvolvimento, ao meu ver, é uma conclusão óbvia. A profª  Terezinha Oiva, representante estadual do IPHAN, antes de trabalhar para a entidade, entendia nos anos 70 o que mais de 20 anos depois seria ratificado em Convenções internacionais. Os 35 anos  do evento se passam e vejo que apenas de 2007 pra cá, quando o Governador marcelo Déda lançou o  Plano de Desenvolvimento Territorial Participativo, é que o Estado começou a buscar esse entendimento, hoje apoiado pelos ideais da Economia da Cultura. Mas, como diriam os grandes filósofos do samba: "O buraco é mais embaixo!". Há um emaranhado de ações que tem que ser intercaladas, articuladas, justapostas e coordenadas entre os diversos e distintos representantes do Poder Público. Será um trabalho hercúleo para nossa Secretária de Estado da Cultura, Eloísa Galdino.



Em vários momentos do Simpósio a fala dos palestrantes sobre o valor dessa imaterial cultura era entrecortada pelos sons dos brincantes. A teoria discutida no auditório era posto em prática logo ali do lado de fora. Momento mágico entre tantos outros, como meu almoço com os companheiros Kassen Afif e Emanoel Garapa, ao som das histórias de Zé Rolinha. Batemos uma ótima moqueca de arraia, feita por Dona Cida, esposa do mestre. Regamos com umas cervejas e duas talagadas de cachaças. Pense numa coisa boa!

O apoio da Secult, atuações do IPHAN e da UFS vem dando maior destaque à cidade.  Vejam bem: não sou técnico em nada. Sou apenas um estudante de jornalismo de 35 anos que lê bastante e vê com olhos críticos os acontecimentos ao meu redor.  Mas não creio que seja necessário ser turismólogo ou especialista em Turismo para perceber que a cidade  não está preparada para um fluxo turístico maior. Laranjeiras conta, pelo que me informaram, com apenas um banco, o do Estado de Sergipe - BANESE. O potencial de turismo histórico não aproveitado (não apenas lá mas no Estado de Sergipe todo) é imenso. Muito tempo já foi desperdiçado com blá-blá-blá enquanto cupim e tempo fazem da nossa  cultura e história café da manhã, almoço e janta. 

A semente do Encontro foi lançada (fiquei sabendo no último dia) em outubro de 1973, quando foi realizado a 1ª Festa de Arte de Laranjeiras, que viria a dar forma ao primeiro encontro, realizado em janeiro de 1975. Presentes estavam alguns dos seus realizadores: a atual prefeita, Ione Sobral, a coreógrafa Lu Spinelli, a escritora Aglaé Fontes, entre outras ilustres.





Capa do folheto de divulgação das atrações do evento realizado em outubro de 1973

Desde 1973 se discute os valores do imaterial na cidade de Laranjeiras. A demora do Governo de Sergipe em participar mais ativamente dos processos de desenvolvimento e preservação do patrimônio histórico cultural deve-se a uma aparente letargia lugar-comum aos demais Estados, substituindo melhorias efetivas por paliativos que só maquiam a pálida face das cidades. Até que gosto dos shows. Esse ano tivemos vários! Nacionais e locais: Vanessa da Mata, Amorosa, Olodum, Antonio Rogério e Chiko Queiroga, Lenine, Alex Sant'anna, Raça Negra, The Baggios (foto abaixo),


The Baggios em cena: roquenrrou sãocristovense em Laranjeiras


Público da primeira noite de shows




Enquanto os cortejos avançavam pelas ruas da cidade (foto acima), um apitaço era feito pelos sindicalistas do SINTRAMLA (foto à direita), que reclamavam  dos gastos "perseguições" e "salário de fome" pago ao servidor municipal. Fizeram muito balhuro com meia dúzia de apitos.

Abaixo, nas dependências da UFS - Laranjeiras, o cordelista Zé Antônio expões seus livros. Professor de história, a riquiza de temas abordados pelo escritor vai de personagens históricos como Chiquinha Gonzaga,  Sadam Huossein, George Bush a Che Guevara.



O cordelista Zé Antônio expõe seus trabalhos






Fim da festa. Enquanto uns ficam com a consciência limpa ante as metas da responsabilidade social atingida, outros ficam com as latinhas para revender.


Veja nesse álbum virtual muitas outras fotos do evento.

3 comentários:

  1. Um abraço apertado. Parabens!

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  2. Bruno Pi15.1.10

    Muito legal a cobertura aí, André... Quisera eu ter ido ao encontro. Vida longa e rica a ele!

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  3. Anônimo21.1.10

    Muito Interessante o texto. Gostei bastante!


    Em outros estados, as três instituições de poder atuam ativamente na proteção do patrimônio cultural, mas aqui em Sergipe há apenas o IPHAN (que sempre deixou claro que legalmente atua apenas nos bens de relevância nacional, e não nos bens estaduais).

    Em Minas tem o IEPHA (estadual) e todas as prefeituras tem a sua secretaria de patrimônio. Em Olinda, há uma secretária municipal de patrimônio e seus profissionais dizem que seus critérios devem ser mais rígidos que o do próprio IPHAN.

    Há a necessidade dos Sergipanos também cobrarem do Governo do Estado e das Prefeituras a preservação da nossa memória que existe nos nossos prédios históricos. Porque um único órgão não será capaz de proteger o nós temos.
    Aliás, que eu saiba o orçamento do IPHAN é pequeno (se comparo com outros órgãos) e há poucos profissionais por estado.

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